Cinema - Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis - Kung Fu Total no UCM!

 


Shang-Chi é o meu personagem predileto da Marvel. É engraçado ver a cara da galera quando eu falo isso. Até mesmo no meio dos fãs da Marvel, O Shang-Chi é um personagem que só fãs veteranos conhecem. Dito isso, mesmo hoje ele sendo um personagem dos rankings baixos da editora, o Shang-Chi já foi um de seus personagens mais populares nas décadas de 1970 e 1980, tanto nos EUA quanto no Brasil. Daí hoje, há a convergência correta de fatores pra que haja um filme de primeira linha do personagem, graças a esse sucesso de outrora, somado com uma pitada de aposta e da busca por mais representatividade nos cinemas por parte dos estúdios.

A escolha de um virtual novato, como o diretor Destin Daniel Cretton é um claro movimento positivo de representatividade. Cretton tem no seu currículo obras como Temporário 12, Castelo de Vidro e o excepcional Luta por Justiça, e aqui embarcou na grande máquina que é o Marvel Studios. Junto com David Callahan e Andrew Lanham, Cretton decidiu seguir um caminho já utilizado em obras como Guardiões da Galáxia, que é estudar e entender o seu material fonte e a partir disso, criar uma versão pra telona desses personagens. No caso de Shang-Chi, vindos das HQs clássicas dos anos 1970, personagens esses criados em sua maioria por artistas como Steve Englehart e Jim Starlin para a revista Marvel Special Edition 15. Com esse caminho de renovação, o filme mantém o plot primordial da série de hqs: Shang-Chi lutando contra o seu pai. Aqui já temos uma mudança necessária e primordial: o Fu Manchu.

Fu Manchu foi criado pelo escritor Sax Rohmer no inicio do século XX. Sua concepção é considerada de extremo preconceito e caí no campo do termo chamado “perigo amarelo”, que era uma visão obtusa criada no início do século passado em relação ao oriente. O personagem vilanesco ficou famoso graças a literatura Pulp e ganhou diversas versões, seja no cinema, com uso de “yellow face” e até cópias inspiradas, como o Ming, em Flash Gordon e até na própria Marvel, com o Mandarim, um dos vilões do Homem de Ferro. Daí o time de roteiristas criou uma nova versão do pai de Shang-Chi, o Wen Wu, assim conseguiram consertar um problema oriundo do tropeço chamado Homem de Ferro 3, chamado o Mandarim, e também evitar problemas com uma visão estereotipada do personagem.

Com esse problema resolvido, o roteiro parte pra construção de seu protagonista. Assim como o seu pai, o Shang-Chi do filme é uma versão do personagem dos quadrinhos. Há detalhes que fãs de longa data perceberão como espertos easter eggs, mas o personagem foi atualizado. Após fugir e se esconder do seu pai e da sua organização, os Dez Anéis, Shang aqui procura ser um cara simples, que tem um emprego simples, junto com sua melhor amiga, Katy. Tudo segue bem para o “Shaun”, até que o seu passado volta a bater na sua porta, levando Shang e sua amiga numa rota de colisão com Wen Wu e os Dez Anéis.



O filme utiliza muito bem o seu prólogo pra nos apresentar quem é Wen Wu e sua organização e mostrar quando ele encontra Ying Li, moradora de Ta Lo, uma cidade secreta mística e que acaba casando-se com Wu e sendo a mãe de Shang-Chi. O primeiro ato é uma excelente construção da vida de Shang em São Francisco, ao lado de Katy. Temos aqui 50 minutos de pura adrenalina. Com lutas intensas (falarei delas daqui a pouco) e bons momentos de interações com flashbacks bem encaixados, somos muito bem apresentados à esse conflito de pai contra filhos, graças a excelente introdução de Xu Xialing, a irmã de Shang-Chi.

Xialing também passou pelo mesmo processo que Wen Wu pra ser adaptada ao filme. A sua versão clássica é Fah Lo Sue, que foi criada também nos contos de Sax Rohmer e que nas HQs foi apresentada como uma antagonista tanto de Shang-Chi, como de Fu Manchu, sendo uma das primeiras Femme Fatale da cultura pop.

Ao chegar no segundo ato, o filme desacelera bastante. Há a clara construção e apresentação dessa família disfuncional, que vive um luto enorme e que essa tragédia acaba sendo pesada demais pra todos. Aqui é quando o filme troca a sua pegada mais voltada pros filmes de ação e policiais de Hong Kong dos anos 1980/1990 e torna-se uma grande fantasia Wuxia, como mostrado em seu prólogo. Até que chegamos no terceiro ato, onde há a resolução do grande desafio proposto pelo seu plot inicial, do filho, Shang-Chi, contra o seu pai, Wen Wu. Aqui há alguns escorregões mais sérios, quando o filme precisa virar um grande espetáculo de CGI e também ser mais “Marvel Studios”.

O que é importante perceber é que mesmo com essa escalada, o cerne de um dilema pessoal e familiar é o que sustenta o filme por toda a sua duração. Cretton sabe usar esse conflito pessoal muito bem ao construir personagens tridimensionais. O seu elenco principal foi escolhido a dedo por ele e pelo Kevin Fiege e isso fez a diferença. Simu Liu entrou no projeto como o virtual novato que ganhou a sua grande chance e felizmente, soube utilizar muito bem essa oportunidade. Ele consegue ter o carisma necessário pra sustentar o protagonismo da produção, soube dosar muito bem o humor, o drama e a atuação física e criar a sua versão do Shang-Chi, que funcionou muito bem em tela, mesmo sendo muito distante da versão das HQs. Awkwafina é os olhos do publico e se destaca muito como a amiga fiel Katy, além de ser um bom alívio cômico. Meng´Er Zhang mostra em seu primeiro papel na telona que a sua Xialing é uma boa coadjuvante e que tem muito a mostrar sendo uma personagem forte, mesmo que por dentro carregue muita dor. Fala Chan é a figura maternal, a lutadora que faz com que a sua Ying Li seja um elemento tão catalisador na trama. Wen Wu é um capitulo a parte. Desde sua concepção, era um personagem muito esperado nesse filme e trazer a lenda viva de Hong Kong, Tony Leung, dos magníficos Herói, Fervura Máxima e The Grand Masters, só pra citar uma virgula da sua gigantesca lista de filmes, deu ao projeto o peso e grandeza que precisava. Leung é simplesmente magnético em tela. Vigoroso em suas lutas, sútil em seus gestos e incrivelmente expressivo com seu rosto, os “Olhos de Tony Leung” é a expressão definitiva desse monstro sagrado do cinema e que faz o seu Wen Wu fugir da alcunha de vilão e ganhar o espectador ao tornar-se uma figura complexa, com mais nuances e dilemas e assim tornando-se o melhor personagem em tela. Há também a presença de grandes atores, como Michelle Yeoh, Ben Kingsley e Yuen Wah, como coadjuvantes bem posicionados na trama.



Um filme de artes marciais precisa de lutas que sejam eficientes e precisas em impacto, força, agilidade e plasticidade em tela. Convocar a equipe do grande Jackie Chan garantiu à Shang-Chi a energia necessária pra isso. Brad Allen, de Scott Pilgrim Contra o Mundo e Kingsmam, que fui o único ocidental a ser aceito na equipe de Chan, ficou a cargo da segunda unidade de gravação, como também foi o coordenador de lutas. Aqui temos, junto do também coordenador de lutas Andy Cheng e o diretor de fotografia Bill Pope (da trilogia Matrix), as melhores cenas de luta dos filmes da Marvel. Das homenagens ao filmes de Wuxia Kung Fu, como Herói e Shadow, e indo das lutas mais agressivas, como Bruce Lee e Jet Li, até o uso continuo de elementos de cena, inspirado em Jackie Chan, o filme abraça todo esse repertório visual e adiciona travellings, planos sequencias e usa e abusa dos plongées e contra-polngées durante os combates, o que torna-os únicos e revigorantes pro gênero, isso sem nunca abdicar da clareza cristalina em tela.

Aqui também temos um raro caso de trilha sonora certeira na Marvel, graças ao trabalho de Joel P Weste e o trabalho de figurino criado por Kyn Barrett , sob os concept arts de Andy Park, conseguiram criar algo expressivo e vivo pros uniformes e roupas dos personagens.



Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis tinha a difícil missão de apresentar um novo personagem num já robusto UCM. Ser reverente à suas origens e respeitar o público sino-asiático, trazendo um herói que os representasse de forma adequada e respeitosa. Mesmo não sendo um filme perfeito, o longa do diretor Destin Daniel Cretton e os seus astros Simu Liu e Tony Leung deram conta do recado e criaram um novo lugar dento do Universo Marvel nos cinemas.

 

 

 

 

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