Cinema - Eternos- Chloé Zhao e seu épico intimista de super-heróis!

 


Criados pelos Celestiais, colossais seres alienígenas, os Eternos tem como missão proteger e ajudar a humanidade a evoluir e prosperar. Estando no nosso planeta desde os primórdios da raça humana e se confundindo como a ciência, cultura e mitologia, os Eternos tem o voto de não interferir nos eventos que podem definir o destino da humanidade, exceto quando seus inimigos, os Deviantes estão envolvidos. Assim a missão deles os levaram até os dias de hoje, quando mais uma vez os Deviantes ameaçam a humanidade e eles também precisam lidar com a chegada do grande evento prometido a milênios pelo Celestial Arashem: O Despertar.



Criados em 1976 pelo quadrinista Jack Kirby, um dos alicerces fundadores do Universo Marvel nos quadrinhos, Os Eternos ganham a sua versão no Universo cinematográfico da Marvel. Para essa tarefa, o famoso produtor dos filmes da Marvel, Kevin Fiege, trouxe a aclamada diretora Chloé Zhao. A diretora, mesmo com um número pequeno de longas metragens, já possuí obras aclamadas e premiadas, como o vencedor de Oscar, Nomadland.

Desde o início, trazer os Eternos pra tela grande sempre foi um desafio. Diferente dos Vingadores, que foram construídos aos poucos, o projeto se assemelha muito com a aposta feita com os Guardiões da Galáxia. Personagens pouco conhecidos do grande público, mas que tem potencial pra terem suas histórias acrescentadas no UCM. O que torna esse projeto mais complicado é justamente o escopo da história desses personagens. Aqui temos um cenário de escala cósmica, com seres que podem ser facilmente posicionados como divinos, tais como os Asgardianos (Thor) e ao mesmo tempo, esses seres possuem dilemas, dúvidas e paixões. A diretora, junto dos escritores Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo se debruçam sobre esse novo cenário a fim de explora-lo como ele merece.

Com essa gama de novos personagens e um cenário novíssimo pra trabalhar, o longa acabou tornando-se um dos filmes de maior duração da Marvel, com suas 2h e 37mins, o que resultou num filme mais cadenciado e de ritmo mais devagar. Isso fez com que o roteiro tivesse o tempo necessário pra trabalhar cada relação dos personagens. Mesmo assim, é perceptível como o filme utiliza Sersi (Gemma Chan), Duende (Lia McHugh) e Ikaris (Richard Madden) como guias desse novo cenário. É aqui nas interações e desafios mais íntimos que vemos Chloé Zhao em seu habitat natural.

 As relações entre esses personagens é o que move o filme. Ver como cada um deles lida com a sua missão primordial e como cada Eterno lidou com suas idas e vindas na Terra durante os milênios é muito bem construído, com a narrativa indo do presente ao passado de forma fluida e necessária quando a trama pede. Há momentos mais didáticos e que acabam tornando-se necessários pra ambientar e explicar esse cenário e quando temos os momentos “Marvel”, com o uso de CGI e das cenas de lutas, elas são bem executadas, em especial no terceiro, que em longas anteriores mostrava ser o ponto fraco da narrativa (alô, Viúva Negra e Shang-Chi), aqui temos um bom aproveitamento e utilização da parte final.

Eternos tem, ao ser um cenário novo, a oportunidade de trazer novos espectadores, graças também ao fato de o longa funcionar sozinho, quase caminhando ao lado dos outros filmes do UCM. Há referências gerais desse universo, mas isso não atrapalha espectadores de primeira viagem. Todas as escolhas narrativas fizeram esse longa ser uma antítese do que é feito na empresa. Aqui temos um tom mais dramático e até mesmo vários momentos que o filme aposta numa narrativa de sci-fi pesado. Mesmo assim, o filme possuí boas piadas e momentos mais leves, quando necessário e também não esquece de ser um filme de super-heróis. Os conceitos que o Kirby criou dá pra serem enxergados aqui. Tem umas coisinhas de Neil Gaiman e umas coisinhas de Terra X também, mas aqui há uma reinterpretação desses personagens em relação aos quadrinhos.

Também é perceptível ver a assinatura da Zhao nas tomadas do longa. Os closes contemplativos em primeiríssimo plano estão aqui. Lado a lado dos grandiosos planos panorâmicos que a diretora utiliza muito bem. Se em Nomadland há a tristeza e solidão cinza, aqui temos vigor e vida nos planos ultra iluminados em dourado solar ou em neons saturado, graças a fotografia criada por Ben Davis. Em oposição, as cenas de ação são ágeis e apresentam muito bem como cada Eterno, mesmo sendo bastante poderoso, acaba dependendo um do outro e se completam como uma força de combate.  

O design de produção junto com a direção de arte é muito feliz graças a utilização de locações. Isso deu um frescor e naturalidade que o filme precisava e serviu pra fugir no padrão enlatado do estúdio. Com isso, é importante perceber como a Terra difere do que é mostrado como a estética dos Eternos, que aposta nem um minimalismo de formas concretas básicas e quando chega o momento de mostras os Celestiais, vemos uma escala colossal, que mesmo dentro da escala cósmica, esses seres são únicos e que aqui, diferem do que já havia aparecido em longas anteriores, como visto em Guardiões da Galáxia, mostrando que narrativas diferentes abraçam estéticas diferentes. Os personagens terem cores diferentes pode até soar batido, mas continua funcional e prático. A trilha sonora assinada por Ramin Djawadi é eficiente e bem conduzida.

Cada personagem tem o seu momento no filme. Sejam eles condutores da trama como Sersi, com a Gemma Chan garantindo o lugar de descoberta do espectador. A Duende, que destila sarcasmo e indiferença bem traduzidos no rosto da Lia McHugh e o icônico Ikaris, com Richard Madden, que é o avatar do herói clássico. Dando suporte à essa jornada, temos Salma Hayek e a sua líder maternal Ajak. Gilgamesh e Thena demonstram a força, tragédia e a dor graças a grande química entre Ma Dong-seok e Angelina Jolie. Se o Druig trazido por Barry Keoghan é uma figura atormentada e até sombria, ele acaba abrindo seu sorriso perto da sempre alegre Makkari, que é surda, assim como a atriz Lauren Ridloff. Essa visão positiva de representatividade também é mostrada na família que o Eterno Phastos constrói. Bryan Tyree Henry constrói um personagem tridimensional e carismático. Kumail Nanjiani completa o time com Kingo e sua alegria e humor. O elenco de apoio tem a apresentação de Dane Whitman, mostrando que Kit Harrington é muito mais que o Jon Snow e que aqui sabe das coisas. O único ponto fraco é o o antagonista Kro, que mesmo com o vozeirão Bill Skarsgard, acaba desperdiçado.




Eternos é um tremendo filmão. Chloé Zhao soube colocar personalidade no seu projeto, como também soube jogar pelas regras da Marvel nas horas certas. Escalas cósmicas lado a lado de momentos intimistas fazem o filme ser ligado ao UCM e principalmente, ser um exemplar único nesse grande universo.

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